sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Nosso Céu


Sua voz, somente sua voz
chega até mim.
Sequer sei seu nome,
jamais vi teu rosto,
nem sei onde mora,
o que faz, como vive,
e no entanto, existe a nos unir
algo tão nosso, só nosso,
o caminho para o céu,
nosso céu particular,
tão íntimo e esperado,
aguardado impacientemente,
apaixonada e loucamente.
Nada sou para você
além de uma voz
e você já sabe tanto de mim.
Nem sabe como sou
e já conhece tão bem
a trajetória do meu corpo,
de meus sentidos
de meu coração.
Nem sabe meu nome
e me chama de querida.
Desperta em mim
emoções adormecidas,
faz-me ferver o sangue,
e vibrar de desejo.
Faz-me querer você
com ardor jamais sonhado.
Percorre meu corpo com palavras
e faz-me sentir o gosto
da alegria e do prazer.

sábado, 5 de janeiro de 2008

O sol nas noites e o luar nos dias


De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.



Natália Correia

domingo, 23 de dezembro de 2007

EU


Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada... a dolorida...


Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...


Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber por quê...


Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!


Florbela Espanca

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Meu amor meu amor


Meu amor meu amor
meu corpo em movimento
minha voz à procura
do seu próprio lamento.

Meu limão de amargura meu punhal a escrever
nós parámos o tempo não sabemos morrer
e nascemos nascemos
do nosso entristecer.

Meu amor meu amor
meu pássaro cinzento
a chorar a lonjura do nosso afastamento

Meu amor meu amor
meu nó e sofrimento
minha mó de ternura
minha nau de tormento

este mar não tem cura este céu não tem ar
nós parámos o vento não sabemos nadar
e morremos morremos
devagar devagar.

Ary dos Santos

sábado, 8 de dezembro de 2007

Grito


Silêncio!
do silêncio fasso um grito
corpo todo me dói
deixai-me chorar um pouco.

Só à sombra
como o sol vou rebolindo
de sombra assombrada
já lhe perdi o sentido.

Ó céu!
aqui me falta a luz
aqui me falta uma estrela
chora-se mais
quando se vive atrás dela.

E eu,
a quem o sol esqueceu
só dou ao mundo perdão
só choro agora
porque quem morre já não chora.

Solidão!
que lembras-me a santeira
ao céu da companheira
minha profunda amargura.

Ai, solidão
a quem foste confiante
Ai! solidão
e se morderam a cabeça.

Meu Deus
que ao fim do além da vida
do que já fui tenho sede
sou sombra triste
encostada a uma parrede.

Adeus,
vida que ranto duras
da morte que tanto gabas
ai, que me dês
a solidão quase loucura.

Amália Rodrigues

sábado, 1 de dezembro de 2007


Amália Rodrigues - Disse-Te Adeus E Morri Lyrics


Disse-te adeus e morri

E o cais vazio de ti

Aceitou novas mares.

Gritos de buzios perdidos

Roubaram dos meus sentidos

A gaivota que tu es.

Gaivota de asas paradas

Que nao sente as madrugadas

E acorda noite a chorar.

Gaivota que faz o ninho

Porque perdeu o caminho

Onde aprendeu a sonhar.

Preso no ventre do mar

O meu triste respirar

Sofre a invencao das horas,

Pois na ausencia que deixaste,

Meu amor, como ficaste,

Meu amor, como demoras.




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